sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

CARACTERIZAÇÃO E IMPORTÂNCIA DO MOVIMENTO CTS


O movimento que ficou conhecido como Ciência, Tecnologia e Sociedade, ou CTS, inicia-se, nos anos 1970, com a conscientização sobre a crise ambiental e, na década seguinte, se afirma como tendência curricular na Educação em Ciências.

Esse movimento ganhou adeptos no mundo todo e foi-se incorporando como perspectiva curricular de modos variados, conforme se foi desenvolvendo o entendimento do seu significado.

Nas discussões e debates relacionados com as reformas educacionais, a perspectiva CTS tem sido sugerida como uma alternativa para organização curricular. Nos anos 1980, no âmbito desse movimento, apresentaram-se várias propostas voltadas a uma Educação em Ciências para todos os alunos, cidadãos de uma sociedade de base científica e tecnológica – entre outras, destacam-se, na Inglaterra, o Science in a Social Context (SISCON), projeto curricular desenvolvido por J. Solomon, e o Projeto Salters, ou Projeto 2061 , desenvolvido pela American Association for the Advancement of Science (AAAS) e cuja elaboração envolve cinco áreas – Ciências Biológicas e Médicas; Ciências Físicas e Engenharia; Ciências Sociais e do Comportamento; Matemática; Tecnologia.

Mais que um método ou uma abordagem de ensino, o CTS remete à reflexão sobre as razões de se ensinarem ciências num mundo cada vez mais permeado pela tecnologia, pelo acúmulo da produção de informações, pela rapidez com que estas são socializadas e descartadas, bem como pela participação dos cidadãos comuns em debates de interesse coletivo. Em outras palavras, a Ciência e a Tecnologia, assim como suas relações com a sociedade, saturam o dia-a-dia dos indivíduos na atualidade e impõem-se como formas de viver e pensar. Algumas vezes, as pessoas sentem-se maravilhadas com os desenvolvimentos em C&T; outras, mostram-se por elas ameaçadas.

Quem, por exemplo, não se encanta diante da possibilidade de desvendar os mistérios da vida ou da origem do universo? Ou não se deixa fascinar por tecnologias novas ou, mesmo, antigas – o vôo de um avião; as cirurgias pouco invasivas, feitas com auxílio de microcâmaras e de colas biológicas; o aquecimento e o cozimento em fornos de microondas; o avanço das técnicas de transplante de órgãos; as férias na praia sem danos à pele graças ao uso de protetores solares; o desenvolvimento de plásticos biodegradáveis; as tecnologias que põem o homem em contato com o mundo de modo quase instantâneo? Que outras tecnologias, não citadas acima, o(a) encantam? Como você se relaciona com as tecnologias em geral?

Por outro lado, muitos dos desenvolvimentos resultantes dos avanços da Ciência e da Tecnologia assustam, ainda, a humanidade – por exemplo, até que ponto a Medicina pode avançar no sentido de prolongar a vida? José Saramago, renomado romancista português, em As intermitências da morte, trata do cenário de uma sociedade em que não se morre e questiona os transtornos que o fim da morte implicaria. Você pode citar outras tecnologias que, na sua opinião, ameaçam a sociedade contemporânea?

Noutra perspectiva, muitos se sentem ameaçados, ainda, pelo consumismo que, hoje, diante de tantos produtos novos, continuamente em evolução, nunca permite ao ser humano se satisfazer – o novo computador, recém- adquirido, rapidamente se torna obsoleto; as mídias de comunicação (disco de vinil, CD, VHS, DVD, MP3, MP4, TV digital e outras), cada vez mais modernas, impedem, inclusive, que os indivíduos usufruam os bens de que dispõe num determinado momento. Pode-se, a propósito, perguntar: As bibliotecas eletrônicas preservam, de fato, o patrimônio cultural da humanidade? Como esse acervo eletrônico será acessado no futuro, se as ferramentas e artefatos para tanto ficam logo obsoletos? A par desse estranhamento, configura-se outro, ainda mais paradoxal: enquanto o homem controla um robô que explora a superfície de Marte, na Terra, em alguns países, milhares de seres humanos são privados de seus direitos mais elementares e morrem de fome e desnutrição. Que outros paradoxos lhe ocorrem ao ler este parágrafo?

A preocupação com a formação geral de todos os indivíduos para o exercício da cidadania tem levado à proposição de novos currículos, bem como de materiais didáticos mais atualizados, e à formação de uma nova consciência pedagógica dos docentes quanto ao ensino que praticam. Cidadania, nesse caso, é entendida como expressão dos direitos civis, econômicos e sociais das pessoas na sociedade.

O movimento CTS tem como primeiro desafio o de rever os objetivos e conteúdos da Educação em Ciências, assim como os métodos de ensino e a concepção de Ciências que fundamenta as práticas pedagógicas em sala de aula. Independentemente do grau de concordância sobre os diferentes sentidos atribuídos ao Ensino de Ciências, admite-se, hoje, que esse ensino caracteriza-se por sua importância central na formação dos educandos em geral. Entre outros propósitos da Educação em Ciências, na atualidade, Claxton (1991) enumera os seguintes:

* Promover um melhor desempenho econômico da sociedade.
* Fomentar pesquisas que visem a se constituir um melhor meio de explorar todo o potencial da natureza, sem causar danos e impactos ao Planeta.
* Possibilitar o engajamento de todos os estudantes, por prazer e entretenimento, no mundo da Ciência.
* Dar acesso ao conhecimento básico que permita a todos os cidadãos ter controle sobre a tecnologia de que fazem uso em sua vida.
* Aumentar a participação cidadã e responsável em debates cruciais, relacionados à Ciência, com os quais a sociedade se defronta.
* Rever os estereótipos sobre Ciência e cientistas que, favoráveis ou desfavoráveis, distorcem a participação das pessoas “comuns” em tais debates.
* Dar acesso às formas de pensamento científico, como ferramentas poderosas a serem usadas nas tomadas de decisão e na solução de problemas vivenciados pelas pessoas.
* Promover o acesso à Ciência como produto cultural.

Em síntese, a Ciência constitui a maior e a mais constante mudança que se verifica na cultura e acredita-se que, sem dominar os conhecimentos científicos, mesmo que os mais rudimentares, um indivíduo não pode ser considerado plenamente educado.

Segundo Santos (1999:168), os temas mais referidos, na literatura, devido ao seu forte impacto social e cultural no mundo contemporâneo, são:

* as tecnologias limpas e poluentes, de exploração do espaço, nucleares, de energias renováveis, de novos materiais, do laser e de armas químicas, da engenharia genética e da agricultura;
* a revolução na área da eletrônica e da informação;
* a redução da biodiversidade e a destruição de solos, florestas e da camada de ozônio;
* a definição da vida e da morte;
* os transplantes de órgãos;
* a Medicina Alternativa e a Medicina Acadêmica; e
* a saúde e a doença.

Outro projeto, denominado Science for Public Understanding, de Hunt e Millar (2000), também relaciona temas atuais e controversos, com o propósito de formar um entendimento público de Ciência e Tecnologia na sociedade. Entre outros temas, os autores destacam:

* doenças infecciosas;
* riscos para a saúde;
* Ética na Medicina;
* Medicina Alternativa – Homeopatia e outras;
* doenças genéticas;
* Engenharia Genética;
* superação de uma visão antropocêntrica de mundo;
* uso de combustíveis;
* fontes de energia elétrica;
* qualidade do ar;
* combustíveis e aquecimento global;
* fontes e efeitos da radiação; e
* superação da visão geocêntrica de universo.

Esses temas são comumente usados como contexto, como pretexto e como pré-texto para o ensino. Em todos eles, o que importa mesmo, é o poder transformar o ordinário em extraordinário (Lutfi, 1990), o conseguir ultrapassar o senso comum do olhar primeiro, ingênuo e não-problemático, sobre as coisas que cercam os indivíduos – é, enfim, o aprender Ciências para interagir melhor com o mundo (Chassot, 1995).

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